ELEIÇÕES 2026: COM A POSSÍVEL VOTÓRIA DE FLAVIO BOLSONARO PODE MUDAR O EQUILIBRIO ENTRE OS TRÊS PODERES PODE AFETAR OS GOIANOS

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Eleições 2026: como uma possível vitória de Flávio Bolsonaro pode mudar o equilíbrio entre os Três Poderes e afetar a vida dos goianos

cropped-whatsapp-image-2025-08-21-at-15-52-55 ELEIÇÕES 2026: COM A POSSÍVEL VOTÓRIA DE FLAVIO BOLSONARO PODE MUDAR O EQUILIBRIO ENTRE OS TRÊS PODERES PODE AFETAR OS GOIANOSRaunner Vinícius Soares

10 outubro 2026 às 21h00

O cenário que emerge das urnas desenha um Congresso mais alinhado à direita e potencialmente mais favorável a uma agenda liberal-conservadora

As pesquisas e projeções eleitorais apontam para um cenário de favoritismo de Flávio Bolsonaro (PL) na disputa presidencial, projetando para o segundo turno uma das mais significativas reconfigurações políticas desde a redemocratização. Nesse sentido, enquanto o campo da direita celebra a consolidação de sua força eleitoral e a perspectiva de ocupar novamente o Palácio do Planalto, as lideranças e eleitores de esquerda assimilam com surpresa a dimensão dos resultados produzidos pelas urnas no primeiro turno das Eleições de 2026.

O impacto da votação vai muito além da corrida presidencial. A nova correlação de forças no Congresso Nacional redesenhou o mapa do poder em Brasília, fortaleceu o campo conservador, ampliou o espaço do Partido Novo e enfraqueceu legendas tradicionais que, durante anos, exerceram papel central na articulação política do país.

Na Câmara dos Deputados, o PL confirmou sua condição de principal força política nacional ao eleger 121 parlamentares, ampliando de forma expressiva sua bancada em relação à legislatura anterior. O PT manteve estabilidade e assegurou 70 cadeiras, mas viu crescer a distância que o separa do adversário. Ao mesmo tempo, partidos historicamente associados ao centrão acumularam perdas relevantes, sinalizando uma mudança no equilíbrio interno da Casa.

A composição final coloca o PL isolado na liderança, seguido por um bloco intermediário formado por PT, União Brasil, PSD, PP, Republicanos e MDB. O resultado também confirma a retração de siglas tradicionais, como PSDB e Cidadania, e evidencia o avanço gradual de legendas menores que passam a disputar mais espaço no debate nacional.

Bloco / Força PolíticaPartidosVagasRepetição / Tendência
Direita / ConservadoresPL, Novo131PL isolado como a maior bancada (121); Novo cresce (10).
Centrão e Centro-DireitaUnião, PSD, PP, Republicanos, MDB, Podemos, PSDB, PRD, Avante, Solidariedade, Missão258União (46), PSD (43), PP (41), Republicanos (41) e MDB (36) concentram a maioria, mas perdem espaço frente ao avanço do PL.
Esquerda e Centro-EsquerdaPT, PSB, PSOL, PCdoB, PV, PDT, Rede124PT estabiliza como 2ª força (70); PSOL (14), PSB (15), PCdoB (11), PV (7), PDT (6) e Rede (1).

Fonte: Tribunal Superior Eleitoral (TSE)

No Senado Federal, onde dois terços das cadeiras estiveram em disputa, a onda conservadora se revelou ainda mais intensa. O PL praticamente dobrou sua representação e alcançou 28 senadores, consolidando a maior bancada da Casa. O PT aparece na segunda posição com nove assentos, enquanto partidos que tradicionalmente ocupavam posições estratégicas perderam espaço. Um dos destaques da renovação foi o crescimento do Novo, que ampliou sua presença na Casa Legislativa.

Bloco / Força PolíticaPartidosVagasRepetição / Tendência
Direita / ConservadoresPL, Novo31PL consolida hegemonia com 28 senadores; Novo avança para 3.
Centro / Centrão e IndependentesMDB, PP, Republicanos, PSD, União, Podemos, PSDB34MDB (8), PP (6), Republicanos (6), PSD (5), União (5), Podemos (2), PSDB (2). PSD teve expressiva queda de 8 vagas.
Esquerda e Centro-EsquerdaPT, PSB, PDT, Rede15PT soma 9 vagas; PSB tem 4; PDT (1) e Rede (1).
Sem Partido / OutrosIndependentes11 senador sem filiação partidária registrada.

Fonte: Tribunal Superior Eleitoral (TSE)

O cenário que emerge das urnas desenha um Congresso mais alinhado à direita e potencialmente mais favorável a uma agenda liberal-conservadora. Caso a tendência de vitória presidencial se confirme, o próximo governo iniciará seu mandato diante de uma base parlamentar significativamente mais robusta do que a observada nos últimos anos, alterando as condições de governabilidade e reposicionando as principais forças de oposição.

A partir de fevereiro de 2027, com a posse dos novos parlamentares, terá início uma legislatura marcada por um rearranjo partidário de grande magnitude. É nesse contexto que analistas políticos, juristas e economista buscam compreender os efeitos do novo equilíbrio de poder sobre as instituições, a formulação de políticas públicas e os rumos da democracia brasileira, temas abordados nas entrevistas e reportagens especiais apresentadas a seguir.

Concentração de poder, limites institucionais e os rumos da democracia em análises sobre governabilidade e oposição

A relação entre o fortalecimento das bases governistas no Poder Legislativo, os limites do poder executivo e o papel da oposição no equilíbrio democrático é central no debate político contemporâneo. Ao Jornal Opção, o doutor em Ciência Política, Leandro Rodrigues, analisou os impactos da concentração de influência no Executivo e no Legislativo, ressaltando tanto a busca por governabilidade quanto a necessidade de preservação das garantias constitucionais.

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Doutor em Ciência Política, Leandro Rodrigues | Foto: Acervo Pessoal

Segundo Leandro, a facilidade para governar e a clareza na prestação de contas estão entre os benefícios de um cenário em que um mesmo grupo político detém ampla maioria no Congresso. “Um governo eleito precisa conseguir governar. Uma base ampla no Congresso facilita a aprovação do orçamento, permite dar continuidade às políticas públicas e reduz a necessidade de renegociar apoio a cada votação. Os eleitores também conseguem cobrar os resultados com mais clareza, porque um governo com maioria tem menos espaço para responsabilizar o Legislativo por tudo o que deixou de fazer”, disse.

Por outro lado, o cientista político alerta para os riscos à fiscalização e para a tentação de alterar regras institucionais.

A fiscalização pode perder força quando os aliados passam a proteger o governo de qualquer questionamento. Há um problema democrático se a maioria usa cargos, recursos ou mudanças nas regras para dificultar a atuação dos adversários e se perpetuar. Ganhar uma eleição dá o direito de exercer o governo dentro da Constituição. Os direitos de quem perdeu continuam valendo, inclusive o de se organizar para vencer a eleição seguinte, enfatiza.

Sobre a relevância de uma oposição estruturada para a saúde das instituições, o especialista destacou as contribuições teóricas sobre poliarquia e participação livre.

Quem perde uma eleição precisa continuar tendo voz e condições de disputar o poder. Essa é uma exigência democrática, mesmo quando a oposição tem poucas cadeiras no Congresso. Dahl ajuda a entender por que liberdade de expressão, acesso a fontes de informação e liberdade de organização são tão importantes: sem essas condições, a competição vai sendo esvaziada, declara.

“Uma oposição consegue exercer influência quando pode fiscalizar gastos, cobrar explicações, apresentar propostas e levar suas críticas à sociedade. Não precisa bloquear toda iniciativa do governo para cumprir esse papel. Precisa poder agir sem que sua discordância seja tratada como deslealdade ao país. O respeito às regras também é uma obrigação da oposição, que deve reconhecer a legitimidade de quem venceu e preservar seu direito de contestar”, completa.

A formação de amplas coalizões no Parlamento não é um fenômeno inédito na história política recente do Brasil e de outras democracias. Ao relembrar episódios históricos, Leandro Rodrigues indicou que maiorias expressivas não garantem estabilidade permanente nem ausência de resistências internas. “O Brasil já teve governos do PT com maiorias expressivas. A coligação que elegeu Dilma Rousseff em 2010 reunia 311 deputados e 50 senadores, acima do mínimo necessário para aprovar emendas constitucionais. Portanto, uma base ampla nas duas Casas não seria uma novidade introduzida por um eventual governo do PL. Naquele caso, eram dez partidos”, disse.

“É o presidencialismo de coalizão descrito por Sérgio Abranches: o presidente constrói sua sustentação negociando com outras legendas, que têm interesses próprios. Esse apoio não fica assegurado por todo o mandato. A trajetória de Dilma, encerrada pelo impeachment em 2016, mostra o quanto uma base parlamentar pode mudar. Há também o exemplo de Franklin Roosevelt. Suas maiorias democratas ajudaram a aprovar medidas do New Deal, mas sua tentativa de ampliar a Suprema Corte, em 1937, encontrou resistência dentro do próprio partido e fracassou. O apoio que permite governar pode conviver com a disposição dos aliados de impor limites ao presidente”, detalha.

No âmbito dos freios e contrapesos, o doutor em Ciência Política disse que a atuação cotidiana dos órgãos de controle e ressaltou que as salvaguardas da lei precisam valer igualmente para todos. “Os freios precisam funcionar na rotina: parlamentares cobrando explicações, tribunais de contas examinando gastos, imprensa apurando informações e Judiciário controlando a constitucionalidade dos atos. A preocupação de Madison com os limites do poder continua presente nesse arranjo. Existem ainda barreiras constitucionais. Uma emenda exige três quintos dos votos, em dois turnos em cada Casa, e não pode tender a abolir a Federação, o voto periódico, a separação dos Poderes ou os direitos e garantias individuais”, explica.

“A independência judicial não coloca juízes acima da lei. Interpretar a Constituição exige competência, fundamentação e respeito ao juiz natural, ao contraditório, à ampla defesa e ao devido processo legal. Essas garantias protegem também os adversários políticos. A alegação de defender a democracia não autoriza uma autoridade a ultrapassar suas atribuições ou aplicar direitos seletivamente. Quando situações juridicamente equivalentes recebem tratamentos distintos sem justificativa jurídica consistente, o Estado de Direito é enfraquecido”, observa.

Analisando a possibilidade de uma maior representação do Partido Liberal (PL) em diversas esferas do poder público, o especialista ressaltou a necessidade de separar a dinâmica partidária das influências oriundas de lideranças específicas, reforçando o rito legal para nomeações e reformas institucionais. “Uma maioria do PL obtida nas urnas tem a mesma legitimidade de uma maioria de esquerda. Pode dar ao governo condições de executar seu programa, e esse apoio deve ser avaliado sem presumir uma ameaça apenas pela identidade do partido”, diz.

“Ter a maior bancada, contudo, não equivale a governar sozinho. No presidencialismo de coalizão, outras legendas negociam seu apoio. Também é preciso distinguir a força parlamentar do PL da influência pessoal da família Bolsonaro; uma coisa não determina integralmente a outra. A preocupação institucional começa quando a lealdade a um grupo passa a orientar órgãos que deveriam fiscalizá-lo ou julgá-lo com independência. As indicações ao Supremo devem ser examinadas com esse cuidado. O rito é constitucional: indicação presidencial, sabatina e aprovação pela maioria absoluta do Senado”, aponta.

“O ministro nomeado deve exercer sua função com independência, inclusive diante do presidente que o escolheu. Essa exigência vale para os indicados por qualquer governo. Alterar o número de ministros ou estabelecer mandatos é uma mudança de outra natureza e exige emenda constitucional, aprovada por três quintos dos votos, em dois turnos na Câmara e no Senado. Mesmo com esse apoio, permanecem os limites constitucionais. Uma proposta de reforma precisa ser examinada pelo que efetivamente modifica e pelos efeitos sobre a independência do tribunal”, explica.

Em relação à percepção da sociedade diante do domínio de espaços estratégicos por um único grupo político, Leandro Rodrigues mencionou os vetores partidários e os estudos sobre tolerância a abusos em contextos polarizados. “A reação passa muito pela posição de cada eleitor na disputa. Quem confia no governo pode enxergar na maioria uma oportunidade de cumprir promessas; quem se sente pouco representado pode recear que suas demandas deixem de ser ouvidas. Também pesam os resultados da administração e a percepção de que as instituições tratam as pessoas com Justiça”, afirma.

“A concentração de influência política, isoladamente, não permite prever uma reação uniforme. O cuidado é com a tolerância aos abusos do próprio grupo. Em pesquisa nos Estados Unidos, Matthew Graham e Milan Svolik mostraram que a polarização e a lealdade partidária podem reduzir a disposição dos eleitores de punir condutas contrárias a princípios democráticos. Uma análise do Brasil exige evidências próprias, mas a questão merece atenção: o compromisso com as regras se torna frágil quando depende de quem será beneficiado por elas”, argumenta.

Ao avaliar as consequências regionais de um eventual alinhamento político entre os governos federal, estadual e lideranças de Goiás, o cientista político ressaltou as oportunidades de cooperação, resguardando o princípio da impessoalidade e a autonomia dos municípios. “Goiás poderia aproveitar esse alinhamento para negociar prioridades com Brasília, articular a bancada e coordenar ações em infraestrutura, saúde, segurança e desenvolvimento econômico. Isso pode facilitar o encaminhamento de demandas, mas o benefício precisa aparecer na execução”, diz.

“Uma boa relação política ajuda na negociação; ainda são necessários projetos viáveis, recursos disponíveis e capacidade de realizar o que foi anunciado. As lideranças goianas também precisam manter liberdade para cobrar o governo federal. Em algum momento, uma decisão de Brasília pode contrariar os interesses do Estado, mesmo que todos pertençam ao mesmo campo político. E os municípios governados pela oposição continuam tendo necessidades e direitos. A impessoalidade exige que o atendimento público não seja condicionado à fidelidade partidária. Um alinhamento proveitoso para Goiás deve permitir cooperação e cobrança, sem transformar a obtenção de recursos em um favor pessoal”, concluiu.

Olhar da oposição sobre os riscos da erosão democrática, os freios institucionais e o cenário em Goiás

Além da análise sobre governabilidade e equilíbrio de poderes no campo da Ciência Política, o debate ganha contornos jurídicos com a perspectiva trazida pelo advogado criminalista Gilles Gomes. Ao Jornal Opção, o jurista avalia os impactos da concentração do poder Executivo e Legislativo sob a ótica dos riscos de erosão constitucional e dos limites do Estado de Direito.

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Advogado criminalista Gilles Gomes | Foto: Acervo Pessoal

Ao analisar a relação entre a influência expressiva nos dois poderes centrais, Gilles Gomes ponderou que os riscos superam os eventuais ganhos de governabilidade. “As democracias de hoje raramente acabam com golpes militares e tanques nas ruas. Elas são corroídas por dentro, por líderes eleitos que usam maiorias legítimas para mudar as regras do jogo a seu favor. Quando um mesmo grupo controla o Executivo e o Legislativo, o Congresso tende a deixar de fiscalizar o governo, os órgãos de controle perdem força e abre-se espaço para alterar a composição de tribunais e acelerar votações sem debate público. O aceno de Flávio Bolsonaro (PL) para a elaboração de uma nova constituição seria o espaço perfeito para isso”, expressa.

O especialista reconheceu a agilidade proporcionada por uma maioria parlamentar, mas ressaltou as fragilidades institucionais no contexto brasileiro. “Reconheço que existe um benefício: a governabilidade. Com maioria, o governo consegue aprovar seu programa sem depender de negociações intermináveis. O problema é que, em países com instituições pouco sólidas, a mesma maioria que garante governabilidade também pode servir para remover os limites que ela deveria respeitar. E o momento do Brasil, sob o aspecto da solidez institucional, não parece bom. Veja-se o STF e a crise que tem capturado a atenção nacional”, aponta.

Na avaliação de Gilles Gomes, a alternância de poder e a pluralidade de vozes da sociedade civil desempenham papel essencial na manutenção do equilíbrio democrático. “Considero a oposição indispensável. O que diferencia uma democracia de um regime autoritário com eleições não é a existência do voto, mas a possibilidade real de alternância no poder. Quando a oposição perde espaço no Parlamento, acesso à mídia e capacidade de fiscalizar, as eleições continuam acontecendo, mas a competição se torna desigual”, diz.

Também entendo que a oposição não se resume aos partidos. Imprensa livre, universidades, organizações da sociedade civil e movimentos sociais cumprem esse papel de vigilância. A advocacia autônoma também é de suma importância. Não por acaso, são justamente esses atores que governos autoritários costumam tratar como inimigos, declara.

Ao exemplificar precedentes históricos e internacionais de centralização política, o advogado citou transformações em diversos países e ponderou sobre a dinâmica eleitoral.

Sim, e os exemplos recentes são preocupantes. Na Hungria, Viktor Orbán usou a maioria de dois terços do seu partido para aprovar uma nova Constituição e controlar a corte constitucional. Na Polônia, o governo do PiS submeteu o Judiciário ao Executivo. Na Turquia, Erdoğan extinguiu o cargo de primeiro-ministro e concentrou poderes na Presidência. Na Índia, leis de sedição e antiterrorismo passaram a ser usadas contra opositores e jornalistas, diz.

“Em todos esses casos, a reeleição dos líderes acelerou a degradação democrática. No Brasil, a única hegemonia real de um partido ocorreu com a ARENA, durante a ditadura militar. Desde 1988, nenhum partido teve controle semelhante, e os governos dependeram de coalizões amplas. Esses processos, porém, não são irreversíveis. Depois de 16 anos no poder, quase sempre com maioria de dois terços, Orbán perdeu a eleição de abril de 2026 para o partido Tisza. A Polônia também trocou de governo em 2023”, analisa.

Sobre a eficácia dos mecanismos de freios e contrapesos diante de maiorias consolidadas, Gilles Gomes alertou para a necessidade de proteger as regras institucionais contra mudanças circunstanciais. “Acredito que as instituições só funcionam como contrapeso enquanto mantêm sua autonomia. No Brasil, o STF exerce o controle de constitucionalidade, o TSE garante a lisura das eleições, o TCU e o Ministério Público fiscalizam o uso do poder, e emendas à Constituição exigem 3/5 dos votos nas duas Casas. O federalismo, a imprensa, a advocacia e a sociedade civil completam esse sistema”, afirma.

“O ponto de atenção é que esses mecanismos são os primeiros alvos de quem pretende concentrar poder. Por isso, é preciso observar com cuidado propostas que alterem o número de ministros do STF, mudem a idade de aposentadoria nos tribunais ou interfiram na escolha do Procurador-Geral da República. Instituições fortes são aquelas cujas regras não podem ser modificadas pela maioria do momento”, frisa.

Em relação ao avanço do Partido Liberal (PL) e seus reflexos no cenário nacional, o advogado observou o crescimento da bancada parlamentar e a busca pelo comando de instâncias decisivas.

Na minha avaliação, aumentaria as preocupações. Durante o governo Bolsonaro, o Brasil foi apontado por institutos internacionais como um dos países que mais se aproximaram da autocracia no mundo. Houve ataques recorrentes ao STF, esvaziamento de órgãos ambientais e de controle, e a defesa explícita de mudanças na composição da Suprema Corte. Agora, o PL elegeu 121 deputados e deve ter 28 senadores, a maior bancada de um único partido no início de uma legislatura desde 1988″, avalia.

“Com isso, o partido deve buscar a presidência do Senado, cargo que influencia a análise de pedidos de impeachment de ministros do STF e as indicações para o tribunal. É justamente nas cortes que o risco de concentração costuma se manifestar primeiro. Há, porém, limites a essa predominância. Nenhum partido terá maioria sozinho nas duas Casas, e a Presidência ainda está em disputa: Flávio Bolsonaro e Lula se enfrentam no segundo turno em 25 de outubro. Também reconheço que os apoiadores do PL veem o resultado como um mandato popular legítimo e um ganho de governabilidade. Ainda assim, entendo que o histórico recente justifica vigilância”, completou.

Ao examinar o comportamento da população perante o domínio de espaços estratégicos por um mesmo grupo político, o entrevistado ressaltou a polarização e o fenômeno da autocensura. “Percebo que as reações costumam ir em direções opostas. Parte da população apoia e se mobiliza em defesa do grupo no poder, inclusive nas ruas e nas redes sociais, às vezes de forma agressiva contra críticos. Outra parte passa a se calar por medo de perseguição ou de ataques virtuais, especialmente em temas sensíveis como gênero e sexualidade”, diz.

“Essa autocensura é um dos efeitos mais silenciosos e perigosos da concentração de poder. Ao mesmo tempo, a percepção de abuso também pode gerar resistência. Na Polônia, houve grandes protestos populares contra o controle da mídia e do Judiciário. Na Hungria, a reação veio pelo voto, com participação de quase 79%, a maior desde o fim do comunismo”, aponta.

Por fim, ao mapear as consequências de um alinhamento político em Goiás, o advogado detalhou impactos em áreas que vão do meio ambiente à fiscalização estadual. “Em Goiás, o alinhamento à direita é forte, embora não seja total. Gustavo Gayer (PL) e Gracinha Caiado (UB) foram eleitos senadores e se juntam a Wilder Morais (PL), que tem mandato até 2031. No governo estadual, venceu Daniel Vilela (MDB), e Wilder, candidato do PL, reconheceu a derrota”, diz.

Na minha visão, esse alinhamento traria impactos em várias frentes. Sobre o meio ambiente, o Cerrado estaria mais exposto à flexibilização do licenciamento ambiental, à anistia a desmatadores e ao afrouxamento do controle sobre agrotóxicos. Nos recursos públicos, o acesso a verbas federais poderia depender da lealdade política, com emendas distribuídas com pouca transparência. Na segurança pública, a ampliação do acesso a armas e o endurecimento penal teriam reflexo direto nas polícias estaduais, aponta.

“Na educação, haveria expansão das escolas cívico-militares e possível pressão sobre a autonomia de universidades como a UFG. Na fiscalização, com uma oposição local enfraquecida, aumentaria a responsabilidade do TCE, do Ministério Público estadual e da imprensa regional. Reconheço que, para os defensores desse alinhamento, ele significaria mais investimentos e mais força para o agronegócio goiano em Brasília. Mesmo assim, considero que a concentração de poder em um único campo político, sem contrapesos locais fortes, representa um risco maior do que os benefícios esperados”, concluiu.

Visão econômica e institucional sobre estabilidade, riscos contratuais e os impactos em Goiás

A discussão sobre a hegemonia política ganha contornos específicos quando analisada sob a perspectiva do desenvolvimento socioeconômico e da sustentabilidade das políticas públicas. Ao Jornal Opção, a coordenadora do curso de Ciências Econômicas da Universidade Estadual de Goiás (UEG), professora Adriana Pereira de Sousa, avaliou as implicações da concentração do Executivo e do Legislativo, destacando a importância do equilíbrio entre eficiência administrativa e garantias fundamentais.

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Professora Adriana Pereira de Sousa | Foto: Acervo Pessoal

Ao ponderar sobre o peso dos riscos em relação aos benefícios do controle concomitante dos dois poderes, a economista observou que a fluidez nas votações não assegura necessariamente avanços para o conjunto da população.

O principal benefício potencial é facilitar a coordenação do governo, a aprovação de propostas e a execução de políticas públicas. Uma base parlamentar estável pode reduzir impasses e dar continuidade a projetos. Entretanto, essa capacidade não garante decisões melhores ou resultados positivos para a sociedade, aliás pode ser inclusive o oposto disso, diz.

“Quando a maioria também tende a enfraquecer a competição política, os riscos se tornam mais graves: redução da fiscalização, restrição do debate e utilização da estrutura estatal para perpetuar o grupo no poder. Nesse cenário, a concentração pode comprometer a alternância democrática. O problema central é o exercício do poder sem controles efetivos e sem condições equilibradas para a atuação dos adversários, em situação extrema de controle do poder por um único grupo”, avalia.

Sobre a relevância da oposição no ambiente institucional, a docente frisou que a pluralidade política atua como elemento indispensável para a representação de demandas sociais diversas. “Uma oposição com capacidade efetiva de atuação é necessária. Ela fiscaliza o governo, representa parcelas da sociedade e apresenta alternativas. Sua força depende tanto da representação parlamentar quanto das condições para acessar informações, investigar e disputar eleições”, aponta.

A oposição garante a fiscalização e também que as necessidades de parte da sociedade sejam atendidas, mesmo que não estejam no horizonte político do Executivo. A democracia exige que a maioria possa governar, mas também que a oposição possa questioná-la e chegar ao poder pelas regras eleitorais, completa.

Ao recordar episódios históricos de controle hegemônico no Brasil e contextualizar os perigos de retrocessos institucionais, a professora ressaltou as diferenças entre regimes autoritários formais e o enfraquecimento gradual da democracia. “Há precedentes, embora nenhum deva ser considerado uma reprodução exata do cenário apresentado. No Brasil, o bipartidarismo imposto durante a ditadura militar restringiu a organização política, com a ARENA como partido de sustentação do regime e o MDB como oposição permitida. Como esse caso ocorreu em um regime autoritário, não pode ser equiparado a uma maioria obtida em eleições democráticas”, diz.

As principais consequências foi a cassação de direitos políticos, perseguição, tortura e morte aos adversários ou àqueles que questionavam o governo ditatorial. Contudo, mesmo que não ocorra de fato um processos como foi a ditadura, é possível ocorrer a deterioração das instituições democráticas, que podem ser enfraquecidas mesmo de forma gradual sob um governo eleito. Esse enfraquecimento das instituições leva à perda de direitos sociais, insegurança política, jurídica e institucional, e com o enfraquecimento do controle sobre o governo. Não é categórico que isso venha a ocorrer, porém é necessário atenção para um cenário tão homogêneo no legislativo aliado à mesma posição política do Executivo, explica.

Analisando os mecanismos de controle e a preservação das regras constitucionais frente a maiorias expressivas, Adriana Pereira de Sousa defendeu a manutenção da autonomia dos órgãos de controle e alertou sobre propostas de revisão constitucional. “As instituições funcionam como contrapesos quando mantêm autonomia para fiscalizar, investigar e limitar decisões, mesmo diante de uma maioria eleitoral expressiva. Isso envolve controle parlamentar do Executivo, fiscalização dos recursos públicos, atuação independente do Ministério Público e controle de constitucionalidade pelo Judiciário”, afirma.

A Constituição brasileira protege a separação dos Poderes contra emendas tendentes a aboli-la. No caso de possível proposta de uma nova constituinte, que é uma das propostas de um desses grupos, merece muita atenção da sociedade e dos protetores da constituição brasileira, visto que a Carta Magna de 1988 é nossa instituição máxima. Instituições fortes garante uma democracia forte. Instituições fragilizadas deixam toda a sociedade à mercê da vontade e das decisões à revelia dos governantes e isso é um risco para a sociedade como um todo, destaca.

A respeito de uma eventual predominância do Partido Liberal (PL) nos diferentes níveis federativos, a coordenadora destacou que a redução da pluralidade no Parlamento pode acarretar perdas diretas de direitos garantidos à população. “Poderia produzir ambos os efeitos. A predominância do PL poderia facilitar a aprovação de propostas e a articulação entre diferentes esferas de governo. Contudo, aumentariam as preocupações com o enfraquecimento da fiscalização e a utilização das instituições para consolidar sua permanência no poder, considerando o histórico recente da reação às eleições no Brasil”, disse.

“Uma orientação de extrema direita torna-se institucionalmente preocupante se isso se traduzir em práticas autoritárias, exclusão de adversários ou rejeição dos limites constitucionais, com proposituras de um novo modelo constitucional sem muita clareza do que seria esse novo modelo. Sobretudo a redução massiva de oposição no legislativo, do ponto de vista democrático não é favorável para a sociedade como um todo. A pluralidade partidária e de posições políticas é o que garante a fiscalização e o atendimento a todos os grupos e classes sociais. Sem isso, o governo ficaria livre para tomar decisões inclusive que podem prejudicar grande parte da sociedade como, por exemplo, ações direcionadas à perda de direitos trabalhistas”, ressalta.

No que se refere às percepções da sociedade diante da ocupação de posições estratégicas pelo mesmo grupo político, a economista enfatizou a assimetria das reações e os riscos de uma perda de direitos percebida tardiamente.

“A reação varia conforme as preferências políticas, a confiança nas instituições e os resultados percebidos. Apoiadores podem interpretar a concentração como oportunidade de estabilidade e cumprimento de promessas. Outros cidadãos podem perceber perda de representação, redução da fiscalização ou ameaça a direitos. Também podem ocorrer mobilização social, resignação ou afastamento da política. Não é possível afirmar qual reação predominaria sem pesquisas representativas”, aponta.

“Em um cenário mais amplo é especialmente importante avaliar se as pessoas dispõem de informação plural e liberdade para manifestar discordância: ausência de protestos não comprova, por si só, aprovação popular. Portanto, em muitos casos, a sociedade toma a decisão de escolher determinados grupos por acreditar que seus valores estarão sendo atendidos. Contudo, isso pode refletir na redução de seus direitos, por exemplo, mas isso somente será percebido após a instalação desse grupo no poder”, analisa.

Por fim, ao mapear as consequências práticas para o Estado de Goiás em uma conjuntura de alinhamento político abrangente, Adriana Pereira de Sousa apontou o duplo aspecto entre a facilidade administrativa e os gargalos na fiscalização e autonomia local.

O alinhamento poderia facilitar a interlocução e a coordenação de projetos de infraestrutura, logística, saneamento e desenvolvimento regional. Os resultados, porém, dependeriam de disponibilidade orçamentária, qualidade dos projetos e capacidade de execução. De negativo, o que poderia acontecer seria uma ampliação dos riscos de fiscalização menos efetiva, dependência das lideranças locais em relação ao grupo dominante e favorecimento político na distribuição de recursos, afirma.

“Municípios e setores sem proximidade com esse campo poderiam enfrentar dificuldades de interlocução, situação que precisaria ser comprovada por evidências. Para Goiás, a questão decisiva seria verificar se a articulação produz benefícios distribuídos por critérios transparentes e se preserva a autonomia das instituições estaduais e municipais. A convergência política pode facilitar a gestão; quando reduz o espaço de contestação e controle, pode comprometer a qualidade das decisões e a representação dos interesses da sociedade. Contudo, o risco da dominância do poder por um único grupo ideológico pode deixar de fora os interesses de grande parte da sociedade, ou ser menos transparente dependendo da sua forma de atuação política”, conclui.

A visão conservadora da sintonia institucional, das pautas legislativas e da atração de investimentos para Goiás

Na perspectiva do campo conservador, a configuração parlamentar aliada a uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro é vista como uma oportunidade de convergência entre os Poderes e aceleração de pautas estratégicas. Ao Jornal Opção, o deputado federal eleito por Goiás, Major Vitor Hugo (PL), defendeu que o alinhamento ideológico entre o Congresso e o Executivo garantirá governabilidade e estabilidade institucional.

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Major Vitor Hugo | Foto: Fábio Chagas/Jornal Opção

Ao analisar o avanço da bancada de direita na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, o parlamentar ressaltou que o resultado das urnas reflete a escolha direta do eleitorado. “O país já deu uma resposta por meio do Congresso Nacional quando elegeu uma maioria nossa no Senado, composta por conservadores de direita, além da maioria na Câmara dos Deputados. O Flávio Bolsonaro vai governar o país com uma relação muito boa com o Congresso Nacional, porque já existe um alinhamento ideológico e uma sintonia evidente. Ficamos a poucos votos do necessário para vencer no primeiro turno. Estamos trabalhando muito para que essa vitória venha no dia 25 e estamos com muita fé de que ela virá”, afirmou.

Diante do cenário de expressiva sustentação parlamentar, Major Vitor Hugo rebateu receios sobre excesso de poder e destacou as metas de reformas estruturais e eventuais mudanças no Poder Judiciário. “A relação vai ser excepcional. Sem contar que o presidente eleito, além de já ter maioria na Câmara e no Senado, vai indicar três ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Isso no mínimo, pois, caso ocorra o impeachment de algum ministro, ele poderá indicar quatro ou cinco nomes”, disse.

Ele realmente terá condições de promover as mudanças de que o país tanto precisa, como reequilibrar os Poderes da República e revisar a Reforma Tributária, que no final acabou muito ruim. A proposta original era simplificar, diminuir a carga tributária e descentralizar recursos, que é o que a maioria da população quer. O resultado, porém, foi o contrário, pois centralizou recursos em Brasília, aumentou a carga tributária e não simplificou. Tudo isso precisará ser feito no governo do Flávio Bolsonaro, defende.

Sobre a atuação das legendas oposicionistas no Parlamento, o entrevistado pontuou que a discordância é válida na democracia, mas destacou a superioridade numérica de seu campo político.

Sempre haverá uma oposição e é saudável que exista em uma democracia. Contudo, em primeiro lugar, o número de parlamentares da oposição está em franca desvantagem se comparado ao nosso grupo. Em segundo lugar, as nossas pautas estão muito mais alinhadas com os anseios da imensa maioria dos brasileiros. Portanto, a oposição vai existir, mas vamos conseguir vencê-los na imensa maioria das pautas, avalia.

Ao ser questionado sobre os riscos de concentração de poder e os alertas clássicos sobre a erosão democrática, o deputado descartou qualquer ameaça às instituições e reforçou os compromissos de seu programa de governo.

Não vejo esse risco. As ideias do Flávio são todas democráticas e alinhadas com a Constituição Federal. Não consigo enxergar nenhum tipo de risco à democracia com a eleição do Flávio. Pelo contrário, acredito que ele vai apontar a bússola do nosso país para o caminho em que estava durante a gestão do pai dele, Jair Bolsonaro. É o trilho da prosperidade, com responsabilidade fiscal, capacidade de atração de investimentos, valorização do agronegócio, valorização da família, proteção das mulheres vítimas de violência, combate à corrupção e enfrentamento ao crime organizado. Vamos conseguir promover as mudanças que o Brasil tanto espera, ressalta.

Por fim, ao mapear as consequências diretas dessa aliança para o Estado de Goiás, Major Vitor Hugo destacou a prioridade dada à região pela candidatura presidencial e garantiu empenho na atração de recursos federais. “Ficou claro o compromisso com o nosso Estado, pois o primeiro lugar que o Flávio esteve após o primeiro turno foi aqui em Goiás, para receber o apoio do governador eleito Daniel Vilela (MDB), de Ronaldo Caiado (PSD) e de dezenas de prefeitos. Isso demonstrou a importância de Goiás para ele, e o apoio expressivo obtido aqui vai se ampliar no segundo turno”, diz.

“Nós estaremos no Congresso Nacional para fazer a interlocução do Estado com os ministérios e com o próprio presidente. Vamos indicar emendas, articular políticas públicas nas pastas ministeriais para contemplar Goiás e resolver problemas estruturantes. O cenário está muito aberto e favorável para o nosso Estado, e vamos articular para garantir a chegada de investimentos e a presença benéfica do governo federal renovado”, conclui.

Oposição parlamentar, direitos sociais e os riscos de retrocesso no cenário goiano

A discussão sobre o equilíbrio de poderes e os impactos de uma hegemonia conservadora no país ganha contornos de enfrentamento político e social na perspectiva da oposição de esquerda. Ao Jornal Opção, o deputado estadual Fabrício Rosa (PT), analisou os riscos da concentração de influência pelo grupo liderado pelo Partido Liberal. O parlamentar apontou ameaças diretas aos direitos trabalhistas, ao patrimônio público e às conquistas sociais no Estado de Goiás e no Brasil.

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Deputado estadual Fabrício Rosa (PT) | Foto: Divulgação

Ao avaliar as consequências de uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro e da ampliação da influência do PL no Executivo e no Legislativo, o parlamentar enfatizou que o avanço dessa agenda representa um risco direto à classe trabalhadora e à soberania nacional.

Sabemos que haverá um avanço das políticas neoliberais e de privatização, com a tentativa de entrega da Petrobras, das universidades públicas e de bancos, como o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, além da retirada de direitos do povo trabalhador. É importante lembrar que, durante o governo Bolsonaro, não houve aumento real do salário mínimo, que considera a inflação e a variação positiva do PIB, política mantida nos governos Lula, afirma.

Em um dos anos, o reajuste do mínimo foi de apenas R$ 6. Além disso, propôs-se a alteração do Benefício de Prestação Continuada para R$ 400 aos menores de 70 anos, atingindo um salário mínimo apenas após essa idade. Propôs-se também um auxílio emergencial de apenas R$ 200 na pandemia, elevado para R$ 600 por ação do Congresso, além da Reforma da Previdência, que acabou com a aposentadoria por tempo de contribuição e elevou a idade mínima, e da tentativa de privatizar a Previdência Pública. A concentração de poder nas mãos desse grupo significa mais privatizações e mais ataques aos direitos sociais, completa.

A relevância de uma oposição estruturada para mobilizar a sociedade e acionar as instâncias de fiscalização foi destacada pelo deputado em um contexto de forte presença governista no Parlamento. “Uma oposição fortalecida é capaz de garantir a denúncia pública, promover o debate com a sociedade, assegurar a participação popular e acionar os órgãos de controle, como os Tribunais de Contas e os Tribunais Superiores. Somente com uma oposição atuante conseguimos levar o diálogo às ruas e barrar retrocessos, como fizemos em diversas pautas no governo anterior. A oposição precisa estar fortalecida para enfrentar os riscos impostos por um campo político com histórico e inclinações de caráter autoritário e golpista”, ressalta.

Ao projetar a atuação da esquerda e contextualizar a composição do Legislativo brasileiro, Fabrício Rosa frisou que a presença progressista cresceu, embora a estrutura parlamentar historicamente favoreça grupos econômicos dominantes. “Não podemos alimentar um cenário de alarmismo como se a esquerda estivesse enfraquecida. O Partido dos Trabalhadores ampliou sua bancada federal de 65 para 70 deputados, o PSOL cresceu de 13 para 14, o PSB manteve estabilidade e, em Goiás, aumentamos de três para quatro deputados estaduais”, diz.

“A esquerda sempre foi minoritária no Congresso Nacional e nas Assembleias Legislativas, pois a política eleitoral no Brasil é fortemente influenciada pelo poder econômico de famílias de grande porte financeiro. Mesmo nos governos Lula e Dilma, o Executivo de esquerda conviveu com um Parlamento de maioria conservadora. Portanto, o desafio de atuar com um Legislativo de direita não é inédito”, destaca.

Em relação à preservação das garantias institucionais e ao papel do Poder Judiciário, o parlamentar ressaltou a importância de impedir manobras que afetem a composição das cortes superiores. “Esperamos que não haja reedição de propostas, como a ampliação do número de ministros do Supremo Tribunal Federal para obtenção de maioria artificial, prática observada em regimes autoritários como o da Venezuela. É fundamental que o STF permaneça atuando como guardião autônomo da Constituição Federal, e que os Tribunais de Contas e o Poder Judiciário mantenham sua independência e regularidade sem sofrer perseguições”, defendeu.

Sobre o preenchimento de posições estratégicas no Estado e a aprovação de autoridades pelo Senado, o entrevistado demonstrou preocupação com a idoneidade das indicações em agências reguladoras e instâncias de controle. “O grupo político em questão possui histórico de vínculos nebulosos e relações com milícias e organizações que lesaram aposentados e pensionistas. O risco de utilização de espaços públicos e agências estatais para contemplar indicados ligados a grupos criminosos é real e exige vigilância. Utilizaremos os instrumentos democráticos, como a Polícia Federal, a Controladoria-Geral da União e os Ministérios Públicos, para fiscalizar e denunciar qualquer tentativa de aparelhamento ou uso ilícito dos bens públicos”, alertou.

Ao analisar a percepção pública perante a gestão governamental e a ocupação de espaços institucionais, Fabrício Rosa observou que a reação popular tende a se intensificar com o impacto econômico direto na vida dos cidadãos.

Embora parcela da população esteja sob influência da desinformação e de discursos extremistas nas redes sociais, haverá uma resposta na medida em que os impactos financeiros se concretizarem. Quando a população sentir o congelamento de aposentadorias, a perda do poder de compra, o arrocho sobre os servidores públicos ou a redução de benefícios sociais, a realidade prevalecerá. A direita governa para interesses de grandes grupos econômicos, e a reação popular virá quando o bolso e os direitos da classe trabalhadora forem diretamente afetados, explica.

Ao abordar os reflexos dessa conjuntura para Goiás, o deputado criticou as alianças locais e defendeu o legado de investimentos federais deixados pelas gestões progressistas no Estado. “Causa profunda indignação ver lideranças estaduais que se projetavam como uma direita tradicional aliarem-se a correntes anticiência e negacionistas que custaram milhares de vidas durante a pandemia. Do ponto de vista estrutural e de investimentos, o estado de Goiás sempre dependeu de aportes federais significativos”, diz.

“O governo Lula deixou marcas concretas no Estado, como a duplicação das principais rodovias federais, a construção do novo Aeroporto de Goiânia, a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) da capital, a expansão da Estrada de Ferro Norte-Sul, o Hospital das Clínicas da UFG, hospitais universitários no interior e novos Institutos Federais em municípios como Cavalcante, Iporá e Porangatu. O Estado de Goiás tem muito a perder e sofrerá prejuízos expressivos com o desmantelamento de investimentos e a implementação de políticas nacionais contrárias aos trabalhadores”, conclui.

A perspectiva do agronegócio e do conservadorismo: ajuste fiscal, limites do Judiciário e governabilidade

No campo político de alinhamento conservador e de defesa do setor produtivo, a transição de governo é encarada como um momento de correção de rumos econômicos e restauração de garantias institucionais. Ao Jornal Opção, o deputado estadual Amauri Ribeiro (PL) avaliou as perspectivas para uma eventual gestão de Flávio Bolsonaro, destacando a importância da forte base parlamentar no Congresso Nacional para a recuperação da economia, o apoio ao agronegócio e o combate ao aumento da carga tributária.

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Deputado estadual Amauri Ribeiro (PL) | Foto: Reprodução

Ao analisar o cenário político e a consolidação da nova maioria no Legislativo, o parlamentar afirmou que o resultado eleitoral reflete o esgotamento do modelo atual e a busca por crescimento.

O país está esgotado deste governo que tem colocado projetos que só taxam e prejudicam o povo brasileiro, trazendo custos imensos e prejuízos principalmente ao agronegócio, que alimenta este Estado e esta nação sem receber o devido suporte. Por causa de tanto sofrimento do povo, dos empresários e do setor produtivo, o próprio país deu a resposta nas urnas. Elegemos a maioria dos senadores e deputados federais, o que facilita a gestão de Flávio Bolsonaro. Tenho certeza de que será um dos governos mais bem consolidados na Câmara Federal e no Senado, com a aprovação de matérias que realmente tragam suporte para o país voltar a crescer, declara.

Ao ser questionado sobre a relação com as forças de oposição no Parlamento e os desafios fiscais do Executivo, Amauri Ribeiro sinalizou que a reação oposicionista não impedirá os avanços pretendidos e apontou a necessidade de auditoria nas contas públicas. “Teremos oposição, mas acredito que ela não terá força suficiente para causar dano à gestão de Flávio Bolsonaro. O país passa hoje por uma crise financeira grave, com dívidas elevadas que estão sendo mantidas debaixo do tapete. Quando a nova gestão assumir, a real situação dos Correios, da Petrobras e de diversas outras estatais virá à tona”, disse.

O primeiro passo será a contenção de gastos e o combate rigoroso à corrupção, o que por si só gerará uma grande economia. Assim como ocorreu na gestão de Jair Bolsonaro, que enfrentou um cenário adverso e uma pandemia e conseguiu alcançar superávit, o Brasil governado com responsabilidade e sem desvios poderá em pouco tempo retomar o superávit e o crescimento, avaliou.

No que se refere às relações federativas e aos impactos diretos para Goiás, o deputado estadual ressaltou que a ampla vitória de candidaturas conservadoras nos estados fortalecerá a cooperação institucional e o envio de recursos públicos. “O alinhamento trará bons frutos não apenas para Goiás, mas para o país inteiro. A maioria dos governadores eleitos pertence ao campo da direita, a exemplo do Paraná e de diversos outros estados”, aponta.

Houve um expressivo apoio popular a governadores, senadores e deputados alinhados a esse pensamento. O país precisa voltar a crescer, o empresariado necessita de condições para sobreviver e o agronegócio precisa de incentivos governamentais para continuar produzindo alimentos, em vez de ser tratado como adversário, defende.

Ao examinar quais seriam as motivações para mudança do eleitorado de centro e dos cidadãos sem alinhamento ideológico rígido, o entrevistado destacou a perda do poder de compra e a busca por segurança jurídica como fatores determinantes no pleito. “Esse público compreendeu a importância do posicionamento eleitoral e percebeu a necessidade de reestabelecer a estabilidade no país. Hoje, a população enfrenta a perda do poder de compra, o impacto da inflação e os efeitos de diversos tributos criados no período recente”, disse.

Do ponto de vista jurídico, houve um enfraquecimento das garantias constitucionais e da liberdade de expressão na tribuna e nas redes sociais. A sociedade entendeu que o poder de compra diminuiu e que era preciso reestabelecer a segurança política, econômica e legal, enfatizou.

Ao abordar a pauta de reformas legislativas em comparação com as pautas de costumes, Amauri Ribeiro garantiu que a prioridade da possível gestão de Flávio Bolsonaro será a revisão do sistema tributário e a proteção das finanças municipais. “O governo está prioritariamente preocupado com as reformas econômicas e com a correção das mudanças tributárias recentes, que geraram grandes prejuízos e retiraram a segurança financeira dos municípios”, disse.

Essa recomposição é prioridade absoluta. Paralelamente, as questões comportamentais e o combate a ideologias nas escolas continuarão sendo tratados com naturalidade e clareza, acompanhando a evolução dos trabalhos no Parlamento, concluiu.

A visão liberal e partidária da governabilidade, do pragmatismo federativo e dos limites constitucionais

A análise sobre a formação de maiorias expressivas no Congresso e seus reflexos no equilíbrio democrático ganha nuances pragmáticas na perspectiva da direita liberal. Ao Jornal Opção, o advogado e dirigente estadual do Partido Novo em Goiás, Artur Kovaciu, argumentou que a existência de uma grande base parlamentar não configura uma ameaça à democracia por si só, destacando a relevância da eficiência na gestão e da soberania do voto popular.

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Advogado e dirigente estadual do Partido Novo em Goiás, Artur Kovaciu | Foto: Acervo Pessoal

Ao avaliar os riscos e benefícios da concentração de influência entre os poderes Executivo e Legislativo, o dirigente ressaltou que a construção de coalizões é intrínseca a regimes democráticos operantes. “A princípio, democracias servem para limitar poderes, o que não significa que a formação de uma coalizão de uma maioria no Legislativo com o Executivo seja necessariamente antidemocrática. O Parlamentarismo, por exemplo, só funciona se um partido ou um grupo de partidos aliados conquista a maioria dos assentos no parlamento. Se o Executivo consegue formular uma proposta para resolver problemas e apresentar reformas necessárias, ter maioria no Congresso é vantagem”, afirma.

No que se refere ao papel da oposição no ambiente institucional, Artur Kovaciu defendeu um modelo focado em propostas concretas e diálogo, evitando o travamento sistemático das matérias. “Naturalmente que se não há oposição então existe uma ditadura. Uma oposição fraca e leniente não será capaz de apresentar contrapontos, negociar meios-termos e fiscalizar as ações do Executivo. Contudo, uma oposição intransigente acaba por interditar o debate público e muitas vezes trabalha contra bons projetos por questões meramente eleitorais. O ideal é que tivéssemos uma oposição responsável, com capacidade de diálogo e propositiva”, declara.

Ao comentar o desempenho do Partido Liberal no pleito de 2026 e a formação da maior bancada da Câmara desde a redemocratização, o advogado pontuou que o sistema constitucional impõe a necessidade de consensos ampliados. “O PL conseguiu 23,5% das cadeiras na Câmara dos Deputados, a maior bancada obtida por um partido desde 1988. Tentar imaginar as consequências disso é tentar prever os próximos quatro anos. Contudo, dada a natureza rígida da Constituição brasileira, as reformas estruturantes que dependem da aprovação de emendas à Constituição precisarão de três quintos dos votos em dois turnos em cada Casa. Mesmo que o PL tenha conseguido eleger a maior bancada desde a redemocratização, ele não será capaz de promover mudanças profundas sem diálogos com outros partidos”, analisou.

Em relação à efetividade dos freios e contrapesos na política nacional, Artur Kovaciu apontou que as fragilidades decorrem de interesses corporativos das elites estatais e não da votação obtida pelas legendas nas urnas.

O Brasil nunca teve um sistema sólido de freios e contrapesos pelo fato de ainda ser uma democracia imatura. Contudo, pouco tem a ver com a formação ou não de maioria no Congresso e sim com a forma como os três poderes se comportam, isto é, muito mais interessados em formar alianças para garantia de benefícios pessoais que no exercício republicano de fiscalização e limitação dos poderes uns dos outros, diz.

“Uma bancada grande de deputados eleitos para o Congresso é expressão da soberania do voto popular. O estabelecimento de relações e arranjos duvidosos entre membros das altas cúpulas dos três poderes é a verdadeira ameaça ao sistema de freios e contrapesos”, observa.

Sobre a predominância do PL e a coesão interna diante do avanço eleitoral, o representante do Partido Novo ponderou que o tamanho da bancada impõe desafios de gestão partidária.

O sucesso inegável do PL nas eleições de 2026 naturalmente favorece a governabilidade. Contudo, quanto maior for a bancada de um partido, mais difícil será manter um alto índice de coesão interna, especialmente para o PL, que quer se distanciar do seu passado de partido de centrão e atuar de forma ideologicamente demarcada no Congresso, explica.

Ao examinar a percepção dos cidadãos sobre o domínio do aparelho estatal por um grupo político, o entrevistado destacou o foco da população na prosperidade econômica cotidiana. “Isso é o que ocorre em todas as unidades da federação nos governos estaduais de forma muito mais robusta do que nos governos federais, que precisam comportar um grupo muito maior de interesses difusos de vários grupos políticos, de pressão, de lobby e outros. A população brasileira é majoritariamente composta por gente que precisa se preocupar em pagar as próprias contas. A maioria das pessoas não se preocupa com a predominância do grupo político A ou B desde que sinta que está prosperando”, ressaltou.

Ao projetar as implicações para Goiás no contexto de alinhamento com a gestão federal, Artur Kovaciu destacou a inevitabilidade da articulação política diante da estrutura federativa atual.

“O desenho atual do pacto federativo obriga os governos estaduais a buscarem um bom relacionamento com o Governo Federal. Não à toa o governador Daniel Vilela (MDB) já anunciou apoio a Flávio Bolsonaro (PL), que obteve a maioria dos votos no primeiro turno. O arranjo ideal é que os governos estaduais atuassem com mais autonomia financeira. Não sendo o caso, o alinhamento de forças é simplesmente necessário”, concluiu.

“Goiás tem povo e luta, não tem dono”

Ao Jornal Opção, Cíntia Dias, presidenta estadual do PSOL Goiás, analisou os impactos do domínio político de “grandes maiorias” nas democracias contemporâneas e a conjuntura política no Brasil e em Goiás. Em uma leitura crítica do atual cenário, a dirigente partidária defendeu a necessidade de freios e contrapesos institucionais, criticou o uso eleitoral do orçamento público e avaliou os reflexos das disputas ideológicas nas políticas direcionadas aos goianos.

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Cíntia Dias, presidenta estadual do PSOL Goiás | Foto: Divulgação

Ao ser questionada sobre a concentração de força no Executivo e no Legislativo, Cíntia Dias enfatizou que a ampliação de uma maioria governamental precisa ser avaliada pelo destino dado ao poder público.

Uma maioria pode ajudar a aprovar políticas públicas. Mas precisamos perguntar quem ganha com essa força. Se ela serve para construir escolas, reduzir a jornada e garantir comida para beneficiar o povo. Se serve para cortar direitos, entregar patrimônio público e proteger grandes fortunas, fortalece a exploração, diz.

A líder partidária apontou que a discussão sobre maiorias passa diretamente pelo financiamento de alianças políticas por meio das emendas parlamentares. “No Brasil, essa discussão passa pelo sequestro político do orçamento. Entre 2020 e agosto de 2022, foram pagos mais de R$ 28 bilhões em emendas de relator, o chamado orçamento secreto. Esse mecanismo alimentou a força eleitoral de parlamentares e alianças locais”, aponta.

Segundo Cíntia Dias, o modelo atual cria uma dependência prejudicial entre a população e os detentores do poder. “O dinheiro é público, mas a obra aparece como presente do deputado. Cria-se um círculo de poder em que o acesso privilegiado aos recursos ajuda a manter os mesmos grupos no comando. O povo paga o imposto, o parlamentar entrega como favor e ainda cobra gratidão nas urnas. Isso precisa acabar”, relata.

Sobre a relevância da oposição no equilíbrio institucional, Cíntia Dias destacou a prestação de contas, mas demarcou os limites que separam a disputa partidária de atos antidemocráticos. “É necessária para impedir que a maioria governe sem prestar contas. Mas oposição democrática exige aceitar eleições e o direito de existir de quem pensa diferente. Setores do bolsonarismo ultrapassaram esse limite”, disse.

Ao abordar o cenário nacional, ela contextualizou as investigações recentes e repudiou episódios extremistas. “A investigação da Polícia Federal revelou um plano que previa assassinar Lula da Silva (PT), Geraldo Alckmin (PSB) e ministros. Isso demonstra que a violência política chegou ao planejamento da eliminação física de autoridades. Não se pode normalizar esse fato como simples disputa entre adversários”, afirma.

A dirigente fez questão de reforçar sua autonomia política no espectro de esquerda, pontuando divergências com a gestão federal sem deixar de defender a ordem institucional.

Como Psolista de fato, tenho críticas profundas à conciliação de Lula da Silva. Quando a negociação preserva privilégios e comprime direitos sociais, a conta cai no bolso de quem trabalha. Mas reconheço em Lula da Silva um governo democrático, que podemos pressionar e disputar. Defender a democracia não exige abandonar nossas críticas. Exige impedir que a violência decida quem pode fazer política, comenta.

Ao recorrer a exemplos históricos e a governos internacionais contemporâneos, a dirigente avaliou os perigos do enfraquecimento institucional. “Sim, embora uma maioria eleitoral não seja automaticamente uma ditadura. O Brasil de 1964 mostra onde pode chegar a destruição dos limites ao poder. A promessa de ordem abriu caminho para cassações, censura, tortura e perseguição a trabalhadores e opositores. Esse passado não pode ser relativizado”, diz.

Cíntia Dias também citou exemplos contemporâneos na Europa e na América Latina para ilustrar os perigos da deterioração democrática e das políticas de austeridade. “Na Hungria, a deterioração das garantias democráticas levou o Parlamento Europeu, em 2022, a considerar que o país já não era uma democracia plena. É um alerta sobre o esvaziamento da democracia por dentro”, explica.

Ao comentar sobre o cenário sul-americano, criticou as medidas econômicas adotadas na Argentina. “A Argentina de Milei traz outros alertas: econômico e social. Seus vetos a aumentos para aposentados e ao financiamento universitário mostram quem pode pagar pelo ajuste. São experiências diferentes, mas revelam riscos concretos. Não aceito um modelo em que o mercado recebe garantias e o povo recebe sacrifícios”, aponta.

Em meio a um contexto de ampla maioria parlamentar, a presidente do PSOL em Goiás sustentou que o fortalecimento da democracia passa pela transparência dos recursos públicos e pela independência dos órgãos de controle. “Precisam começar pelo dinheiro. Cada emenda deve permitir identificar quem indicou, quem recebeu, por que recebeu e qual serviço foi efetivamente entregue. O STF declarou o orçamento secreto inconstitucional e tem exigido transparência na destinação das emendas”, diz.

Ela defendeu que a fiscalização precisa alcançar todas as esferas de poder, sem acordos de autoproteção. “Fiscalização precisa alcançar também os políticos mais poderosos. Quando o Congresso bolsonarista e seus aliados concentram decisões orçamentárias, é fundamental impedir que a fiscalização seja substituída por um acordo de proteção entre os próprios beneficiados. Ministério Público, tribunais de contas e Justiça precisam agir com autonomia”, afirma.

Além das instituições formais, Cíntia Dias destacou o papel indispensável da sociedade organizada. “Mas nenhuma instituição substitui a organização popular. Sindicatos, movimentos de mulheres, universidades e imprensa precisam ter liberdade para cobrar. Quem decide o destino do dinheiro público não pode escolher também quais perguntas aceita responder”, diz.

Ao avaliar os possíveis efeitos de um eventual domínio do Partido Liberal nas instâncias de poder, Cíntia Dias concentrou suas críticas nas pautas sociais e na conduta ética e política da legenda.

Poderia facilitar a aprovação de sua agenda, e é justamente o conteúdo dessa agenda que me preocupa. Minha crítica ao bolsonarismo é seu compromisso com uma ordem social que naturaliza privilégio para poucos e sacrifício para muitos. Vejo nisso a permanência de uma mentalidade escravocrata, que aceita o trabalhador servindo, mas se incomoda quando ele exige descanso, universidade e direitos, aponta.

A dirigente relembrou controvérsias envolvendo figuras centrais da oposição e questionou o uso ideológico de pautas morais. “Flávio Bolsonaro deve ser cobrado por fatos. Foi dele a iniciativa da homenagem a Adriano da Nóbrega, posteriormente identificado pelo Ministério Público como liderança de milícia. Isso exige explicações políticas, sem transformar a homenagem, por si só, em prova de participação em crimes”, comentou.

Para a líder do PSOL, as bandeiras do campo conservador muitas vezes se chocam com a realidade prática. “Também questiono o uso da pauta moral para esconder escolhas econômicas. Defender a família exige garantir salário, comida e tempo para estar com os filhos. Família não pode ser apenas palavra de palanque. Enquanto, na vida real, Flavio e aliados participam de orgias”, afirmou.

A respeito da reação popular ao acúmulo de poder por um grupo restrito, a representante política explicou como a vulnerabilidade social pode ser explorada eleitoralmente. “Parte pode esperar estabilidade; outra parte sente medo ou percebe que não tem voz. E, quando serviços públicos são apresentados como favores de políticos, a necessidade pode virar dependência eleitoral. Por isso, não culpo o povo. Cobro quem usa essa desigualdade para se perpetuar”, diz.

Para quebrar essa lógica, Cíntia Dias defendeu a ampliação de programas sociais com critérios públicos e o avanço em pautas trabalhistas. “A saída é mostrar resultados concretos e ampliar a participação. O Brasil voltou a sair do Mapa da Fome; a isenção de Imposto de Renda até R$ 5 mil aumenta a renda disponível de trabalhadores; o Pé-de-Meia ajuda estudantes a permanecer na escola. São políticas que precisam ser conhecidas como direitos, com critérios públicos”, lembra.

Ela reforçou a necessidade de melhorar as condições de vida da classe trabalhadora para além do ambiente laboral. “Defendo essas conquistas e a pressão para avançar no fim da escala 6 por 1. O trabalhador precisa ter condições de viver, estudar e participar da política, além de trabalhar”, diz.

Ao examinar os cenários econômico e social em Goiás, Cíntia Dias detalhou os repasses da União direcionados ao Estado e questionou os discursos de oposição contundente ao governo central. “Lula demonstra que atender à população não depende de alinhamento partidário, depende de compromisso público. Lula da Silva não virou as costas aos goianos porque Ronaldo Caiado e Daniel Vilela fazem oposição. Só entre janeiro e novembro de 2024, as transferências federais ao Estado e aos municípios somaram R$ 19,08 bilhões. São recursos públicos, incluindo repasses obrigatórios, que sustentam serviços e direitos”, explica.

A dirigente destacou que o apoio federal contempla os mais diversos setores produtivos da região. “O povo não pode ser castigado pela posição política de quem governa seu Estado. E o apoio alcança também o empresariado. De janeiro a novembro de 2024, o agronegócio goiano teve R$ 29,41 bilhões em crédito pelo Plano Safra. Em 2023, bancos federais desembolsaram R$ 9,03 bilhões em crédito produtivo e imobiliário para empresas e empreendedores goianos, sem contar Banco do Brasil e Minha Casa, Minha Vida. Portanto, quem apresenta o governo Lula como inimigo de Goiás precisa explicar esses números. Caiado e Daniel têm direito de fazer oposição, mas não reconhecer a participação federal nas políticas que chegam à população e movimentam a economia beira ao mau caratismo”, disse.

A gestão da segurança pública no Estado também foi objeto de duras críticas da representante partidária. “Na segurança, também precisamos confrontar propaganda com resultados. No primeiro semestre de 2026, Goiás passou de 22 para 47 feminicídios, aumento superior a 113%, enquanto o número nacional caiu 2,5%, segundo o levantamento divulgado em julho. Segurança boa para quem, se as mulheres continuam sendo assassinadas?”, questiona.

Cíntia Dias ressaltou a necessidade de investimentos estruturais e valorização das forças policiais. “Também precisamos cobrar enfrentamento aos golpes digitais, investigação e valorização efetiva dos profissionais, com condições de trabalho e saúde mental. Goiás precisa de cooperação, transparência e distribuição da riqueza. Alimentar hostilidade contra o atual presidente enquanto a economia e os serviços públicos recebem apoio federal mantém a população numa disputa que não resolve seus problemas”, aponta.

Ao encerrar, a presidenta do PSOL reiterou que o poder público deve servir aos interesses coletivos de toda a sociedade goiana. “Governar é garantir direitos, não cultivar inimigos. Goiás precisa de compromisso com seu povo, não de coronéis que se apresentem como donos de suas conquistas. O alinhamento pode facilitar investimentos, mas também pode concentrar ainda mais as decisões nas mãos de quem já controla terra, riqueza e influência política. Goiás precisa de desenvolvimento que chegue ao salário, à escola, à saúde e à proteção das mulheres”, diz.

Por fim, listou ações federais de impacto direto na vida das famílias locais e reafirmou o posicionamento do seu partido. “Existem exemplos concretos do investimento federal que devemos defender. O câmpus Cavalcante do IFG teve seu funcionamento autorizado em julho de 2026. No Gás do Povo, 96,2% dos lares beneficiados em Goiás eram chefiados por mulheres, segundo divulgação do MDS em abril. Educação e gás de cozinha têm impacto direto na autonomia e na vida das famílias. Defendo também a iniciativa de Lula da Silva de proibir as bets, anunciada em setembro, enfrentando uma atividade que compromete a renda familiar. Como presidenta do PSOL Goiás, quero um Estado que produza riqueza e a distribua. Goiás tem povo, diversidade e luta. Não tem dono”, finaliza.

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