REDE SICIAL GERA VICÍO E ALTO RISCOS DE PROBLEMAS DE SAUDE MENTAL

Vício em redes sociais gera riscos para o cérebro e afeta comportamento
2 de agosto de 2026Dia a Dia
Por Marcelo Moreira, especial para o ATUAL
MANAUS – Uma “espiadinha” nas redes sociais é suficiente para tirar completamente o foco do estudante de química da Ufam (Universidade Federal do Amazonas) Juan Pablo Miranda, de 21 anos. Ele percebeu que estava dependente das plataformas digitais quando, ao acessar a internet para fazer pesquisas acadêmicas, acabava deixando os estudos de lado e passava a maior parte do tempo rolando vídeos e posts.
“Além do mal-estar que elas causam, percebi que não consigo focar em fazer algo importante ou assistir a algum vídeo sem que eu tenha que dar uma ‘espiada’ no celular. Isso me tira do foco total e me faz perder o interesse no que estava fazendo antes”, disse o estudante.
A constante falta de concentração relatada pelo Juan é um alerta para o principal efeito do uso descontrolado das redes sociais: a perda de funções cognitivas do cérebro. Especialistas afirmam que a exposição prolongada às plataformas de interação virtual interfere, antes de tudo, no desenvolvimento biológico do ser humano.
“Quando falamos de desenvolvimento do cérebro, temos de lembrar que é o córtex o responsável principal pelas funções cognitivas, como a atenção, a memória, a linguagem, o planejamento, bem como o controle dos movimentos e a percepção do ambiente. O uso descontrolado das redes sociais pode interferir em capacidades metacognitivas do ser humano, como o pensamento, a reflexão e a abstração”, disse o pedagogo e doutor em educação pela Ufam Marcondes Nicácio.
O problema, segundo o educador, não está necessariamente em utilizar as plataformas digitais, afinal, as redes podem oferecer estímulos positivos e facilitar o acesso à informação. A preocupação está no consumo exagerado de conteúdos rápidos e superficiais, sem tempo suficiente para que a informação seja assimilada de maneira mais profunda.
A neurociência estuda esses impactos e já identificou que pessoas de todas as idades podem perder habilidades biológicas e sociais por causa do alto volume de estímulos presentes na internet. O que começa como uma pausa de poucos minutos pode se prolongar sem que a pessoa perceba, ocupando o tempo que seria dedicado ao trabalho, aos estudos, ao descanso ou à convivência.

É nesse ritmo de estímulos constantes que o uso cotidiano pode, aos poucos, deixar de ser apenas entretenimento e começar a interferir na rotina.
“Quanto mais tempo as pessoas estiverem expondo seu cérebro a estímulos, mais estarão criando dependência neuroquímica. Passar horas, principalmente as noites na tela azul (celular, computador, tablet, TV, etc), muda o círculo circadiano, ou seja, troca a noite pelo dia, o cérebro fica privado do sono, e tem consequência. A pessoa fica dependente, agressiva, pois sem descanso, alimentação, ingestão de água e atividade física, haverá consequências a curto e longo do prazo”, afirma a neurocientista do comportamento Elaíse Serrão do Carmo.
Entre os jovens, a atenção é ainda maior porque a adolescência é uma fase marcada pelo desenvolvimento da personalidade, das relações sociais e da própria maturação cognitiva. A busca por estímulos rápidos nas redes sociais ocupa espaço de atividades cotidianas e pode favorecer comportamentos como procrastinação, perda de foco e afastamento social.
Atividades que exigem concentração e esforço, como estudar, ler ou realizar uma tarefa acadêmica, podem ser adiadas em favor de conteúdos que oferecem uma recompensa imediata, como vídeos curtos, notificações, novas postagens e o acompanhamento de curtidas e interação com seguidores.
O educador Marcondes Nicácio explica que, na escola, esses comportamentos modificam a relação dos estudantes com o aprendizado. “Parece haver uma impaciência e indisposição por parte de muitos alunos para ouvir o professor, já que a aula não é um reels que o aluno passa o dedo e avança para o próximo”, disse.
Impactos na saúde mental
Em 2024, um estudo da UFT (Universidade Federal do Tocantins), relacionou o uso problemático das redes sociais com ansiedade, compulsão, isolamento social, baixa autoestima, perfeccionismo e comparação. A pesquisa também mostrou que, apesar de aproximar, informar e facilitar a comunicação, as plataformas interferem na maneira como os jovens se relacionam consigo mesmos, com os outros e com o mundo e intensificam cobranças sociais. Para o estudante Juan Pablo, comentários vistos nas redes sociais provocam sensação de ódio.

“Além da ansiedade desenvolvida por ficar sem internet por longos períodos, passei a observar que senti estresse e ódio aumentar em mim quando se trata de política, não por pessoas terem opiniões contrárias, mas sim por defenderem absurdos e ainda se acharem certas. Mais do que isso, é acompanhar notícias e perceber a realidade que vivemos fora da nossa bolha da casa e isso me despertou um sentimento muito grande de tristeza e desesperança”, disse.
Para o jovem aprendiz João Pedro Lima, de 20 anos, acompanhar o que outras pessoas publicam nas redes sociais alimenta comparações e cria expectativas sobre a própria vida. “Interfere muito pela questão da comparação, não apenas com a aparência de alguém, mas também com a vida de alguém. Pessoas novas conquistando tanto de um jeito fácil, e você, às vezes, não. Dependendo da rede social, as pessoas também são cruéis com você nos comentários”, disse.
O perigo da “rolagem infinita”
Se a dependência por conteúdos dinâmicos no “feed” é motivo para o cérebro passar horas imerso nas plataformas, vídeos curtos disputam ainda mais a atenção. Eles foram pensados para serem consumidos em sequência. Um termina e outro começa quase imediatamente, sem que o usuário precise procurar o próximo conteúdo. O cérebro recebe uma sucessão de estímulos visuais e sonoros, cada um disputando a atenção por alguns segundos.
“Os vídeos curtos podem interferir na capacidade de reflexão, já que rapidamente vão apresentando novas situações com interrupções abruptas que não fixam informações. E o “reflexo de orientação”, que é essencial para reações a possíveis perigos e oportunidades, vai sendo inadequadamente usado, o que pode condicionar o cérebro a entender isso como um padrão, podendo ter efeito negativo em situações reais”, disse o educador Marcondes Nicácio.

Limites ajudam a quebrar o ciclo
Primeiramente, é necessário identificar o quanto as redes sociais determinam o tempo no dia a dia. Desligar as notificações, definir horários para acessar as plataformas e evitar o celular durante as refeições, antes de dormir ou enquanto realiza uma tarefa são mudanças simples que ajudam a reduzir os estímulos. Para os adultos, esses são exercícios diários, mas para crianças e adolescentes, os limites e a educação digital devem ser ensinados pelos pais ou demais responsáveis.
“Os pais têm compensado a ausência deles com acesso irrestrito as telas. Toda pessoa, independentemente da idade, precisa ter um propósito de curto, médio e longo prazo. Se ela não foi ensinada ou reconhece o dano que esse tempo e exposição de conteúdo possa ser considerado prejudicial, maléfico para sua vida, família e futuro, ela poderá ter uma dependência grande, podendo necessitar de acompanhamento psicológico, terapia de grupo e até internação. Será um longo processo e caminho para essa libertação da mente”, afirma a neurocientista Elaíse Serrão.
Juan Pablo tem dado os primeiros passos para reduzir o tempo conectado. “Comecei a conversar com meus amigos e quando pegar ônibus eu desligo a internet, tem dado certo, me sinto menos triste e menos ansioso de certa forma, mas é aquela questão de ‘por quanto tempo isso vai durar até eu começar a olhar esses assuntos de novo?’, mas sigo indo. Tem uns dois meses que estou fazendo isso”, disse.
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