MARROCOS FAZ ACORDO COM BRASIL PARA SUPRIR DEFICIT DE FERTILIZANTES
Marrocos faz acordo com Brasil para suprir déficit de fertilizantes
País africano assume compromisso de fornecer 3,8 milhões de toneladas de fosfatados à próxima safra e deve eliminar tarifa de importação sobre carne bovina brasileira
Cristiane Noberto e Daniel Rittner, da CNN Brasil, Brasília
O Marrocos deverá formalizar um compromisso de fornecimento “seguro” de fertilizantes ao Brasil, em meio às guerras da Ucrânia e do Oriente Médio, que fizeram escassear a oferta do insumo no mercado internacional.
O entendimento será celebrado pelo ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, em viagem para Rabat no início da próxima semana.
O país africano se comprometerá a fornecer 3,8 milhões de toneladas de fertilizantes fosfatados, volume equivalente a 76% do déficit de 5 milhões de toneladas projetado pelo governo brasileiro para a safra 2026/2027.Play Video
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A expectativa é que o fornecimento comece imediatamente. Segundo o ministro, o primeiro embarque de fertilizantes para o Brasil deve ocorrer já na próxima semana.
A missão terá a participação de 12 entidades do agronegócio brasileiro, incluindo a Aprosoja e a Abramilho.
“O fantasma do desabastecimento está definitivamente descartado”, disse De Paula à CNN.
“Essa é, sem dúvida, uma pauta que ganhou muita importância diante das dificuldades de logística que decorrem dos conflitos em duas áreas estratégicas para o escoamento dos fertilizantes”, acrescentou o ministro.
Sem alarde, as negociações entre Brasil e Marrocos foram conduzidas em um momento de preocupação com o abastecimento de fertilizantes no mercado internacional. Cerca de 92% dos fertilizantes consumidos no Brasil vêm do exterior.
Essa dependência se tornou mais sensível com as guerras que afetaram importantes rotas de transporte e aumentaram o temor dos países importadores com a disponibilidade do insumo.
No caso brasileiro, o risco é ainda maior porque a agricultura depende da chegada dos fertilizantes para o calendário de plantio.
O ministro afirmou que, diante de tal cenário, o governo passou a trabalhar em duas frentes. De um lado, busca fornecedores capazes de garantir o abastecimento no curto prazo. De outro, tenta ampliar a produção brasileira para reduzir a vulnerabilidade externa no longo prazo.
A estratégia inclui a retomada de fábricas de fertilizantes no país. Três unidades da Petrobras foram reabertas e uma quarta, no Mato Grosso do Sul, ainda está em processo.
A retomada permitirá elevar a participação da produção nacional, mas não eliminará a necessidade de importações, especialmente de insumos que o Brasil não produz, como os fosfatados. A Rússia tem sido um dos maiores fornecedores.
Um dos primeiros países a aumentar seus envios para o agro brasileiro foi a China. De Paula ressaltou que uma missão realizada no começo do ano chancelou a ampliação no suprimento de fertilizantes nitrogenados e NPK.
Agora, o governo busca fazer movimento semelhante com o Marrocos. O país tem grande disponibilidade de fosfatos e, segundo o ministro, também passou a ser procurado por outros países interessados em garantir o abastecimento.
Tarifa zero para carne bovina
Outro ponto importante da visita é a ampliação do mercado de carne bovina para o país africano. A missão será acompanhada por integrantes das maiores associações setoriais do ramo, como a Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne).
Embora o mercado esteja aberto, em tese, a carne brasileira enfrenta tarifa de 220% — o que, na prática, barra o acesso. Com a negociação, a cobrança será zerada, aumentando a competitividade do produto.
O mercado marroquino é estimado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária em algo entre 100 mil e 150 mil toneladas por ano. Ainda que seja um volume relativamente pequeno em comparação com outros parceiros, o governo avalia que a posição de Marrocos pode servir como plataforma de entrada para outros países africanos.
Dados do Agrostat, do Ministério da Agricultura e Pecuária, mostram que as exportações brasileiras de carnes para o Marrocos somaram 9,5 mil toneladas em 2025, com receita de US$ 27,7 milhões.
Segundo o ministro, o peso estratégico do acordo vai além do tamanho do mercado marroquino.
“Estamos vivendo uma situação com a União Europeia, que é um mercado estratégico e extremamente importante para nós brasileiros, mas também trabalhamos com outros horizontes”, disse De Paula.
“O primeiro deles é a abertura de novos mercados. Então, são aberturas como essa que vão mitigando e contribuindo para que a gente fique cada vez menos dependente de qualquer mercado”, concluiu.
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